Saúde emocional não é opcional para o ambiente de trabalho

Saúde Emocional
Klaudia Sadala e Paula Castro

A princípio, falar sobre saúde emocional no meio corporativo era quase um tabu. As organizações tratavam o sofrimento psíquico como fragilidade individual, algo que o profissional deveria resolver fora do expediente. Porém, esse cenário mudou — e de forma definitiva.

Hoje, empresas de todos os portes começam a compreender que o ambiente de trabalho exerce influência direta sobre o bem-estar emocional dos profissionais e que ignorar esse fator compromete não apenas pessoas, mas também resultados, reputação e sustentabilidade do negócio.

O trabalho como fator determinante da saúde emocional

A psicóloga Klaudia Sadala explica que a saúde mental não se resume à ausência de transtornos. Trata-se de um estado de bem-estar que permite ao indivíduo lidar com o estresse cotidiano, trabalhar de forma produtiva e se relacionar de maneira saudável. Logo, fatores sociais, psicológicos e organizacionais influenciam profundamente esse equilíbrio.

Segundo ela, o ambiente de trabalho se consolidou como um dos principais determinantes sociais da saúde mental. Portanto, falta de clareza nos processos, conflitos de papéis, modelos de liderança inadequados e desequilíbrio entre vida profissional e pessoal aumentam de forma significativa o risco de adoecimento psíquico.

Esse impacto já aparece de maneira concreta nos indicadores das empresas. No período pós-pandemia, os afastamentos por transtornos mentais cresceram de forma expressiva, afetando diretamente absenteísmo, rotatividade, produtividade e até a ocorrência de acidentes. Sendo assim, as organizações deixam de tratar a saúde emocional apenas como uma questão de autocuidado e passam a reconhecê-la como um ativo organizacional.

Produtividade, intensificação do trabalho e riscos invisíveis

A psicóloga Paula Castro amplia essa leitura ao analisar as transformações nas relações de trabalho ao longo dos últimos anos. Para ela, os ganhos de produtividade vieram acompanhados de uma intensificação significativa do ritmo de trabalho, longas jornadas, pressão constante por resultados e maior controle sobre o desempenho dos trabalhadores.

Dessa forma, criou-se novos riscos dentro das organizações. Aumento de demandas, repetitividade de tarefas, conflitos interpessoais, isolamento social, pouca autonomia e insegurança no emprego formam um ambiente propício ao estresse crônico e ao adoecimento emocional.

Os números reforçam essa realidade. Em 2024, o Brasil registrou mais de 472 mil afastamentos por transtornos mentais, um crescimento de 134% em apenas dois anos. Ansiedade, depressão, burnout e estresse passaram a impactar diretamente os custos das empresas, o clima organizacional e os riscos trabalhistas.

Quando o problema está na forma como o trabalho é organizado

Apesar das particularidades individuais, há um consenso entre as especialistas: na maioria dos casos, o sofrimento emocional não nasce no indivíduo, mas na forma como o trabalho é estruturado.

Sobrecarga constante, metas irreais, ausência de reconhecimento, liderança pouco empática, comunicação falha e ambientes altamente competitivos aparecem entre os principais fatores que comprometem o bem-estar emocional. Soma-se a isso a hiperconectividade, que dilui as fronteiras entre trabalho e vida pessoal, mantendo o profissional em estado permanente de alerta.

Ambientes com baixa previsibilidade e pouca justiça organizacional tendem a apresentar maior prevalência de ansiedade, depressão e burnout, afetando diretamente a capacidade produtiva das equipes.

O papel da liderança na prevenção do adoecimento emocional

Identificar sinais de esgotamento emocional antes que o problema se agrave é uma das principais responsabilidades da liderança. Mudanças persistentes no comportamento costumam ser os primeiros alertas: queda de produtividade, irritabilidade, isolamento, aumento de erros, dificuldade de concentração e absenteísmo frequente.

Klaudia Sadala destaca que o burnout se manifesta por exaustão emocional, distanciamento afetivo em relação ao trabalho e sensação de ineficácia. Líderes que desenvolvem letramento em saúde mental, mantêm diálogo contínuo e praticam escuta ativa conseguem reconhecer esses sinais com maior antecedência.

Paula Castro complementa ressaltando a importância de uma cultura baseada em feedbacks constantes, conversas francas e ambientes de confiança. Para ela, líderes preparados são peças-chave na prevenção dos riscos psicossociais.

Cultura organizacional: onde tudo começa

A cultura organizacional funciona como um espelho das prioridades da empresa. Organizações que valorizam apenas resultados, toleram excesso de carga e silenciam o sofrimento emocional tendem a enfrentar altos índices de adoecimento e perda de talentos.

Em contrapartida, culturas psicologicamente seguras — com clareza de expectativas, reconhecimento, apoio social e participação nas decisões — favorecem engajamento, criatividade e desempenho consistente. Evidências mostram que bem-estar emocional e produtividade caminham juntos, e não em lados opostos.

O que realmente funciona além do discurso na saúde emocional

Campanhas pontuais e ações simbólicas têm pouco efeito quando não são acompanhadas de mudanças estruturais. As práticas que demonstram resultados reais são aquelas integradas à rotina organizacional.

Entre elas estão: gestão realista de metas, políticas claras de desconexão, flexibilização de jornada quando possível, desenvolvimento de lideranças emocionalmente competentes, canais seguros de escuta, acesso facilitado a suporte psicológico e avaliações periódicas de riscos psicossociais.

Paula Castro reforça que essas ações precisam do comprometimento da alta gestão e da atuação estratégica do setor de Gestão de Pessoas, que deve funcionar como agente de transformação. Quando aplicadas de forma consistente, a promoção da saúde emocional deixa de ser um projeto isolado e se torna parte da identidade da empresa.

Saúde emocional como pilar da sustentabilidade empresarial

A convergência das análises mostra que cuidar da saúde emocional no trabalho não é apenas uma escolha ética, mas uma decisão estratégica. Empresas que incorporam esse cuidado constroem ambientes mais saudáveis, reduzem riscos, fortalecem a produtividade e garantem maior longevidade ao negócio.

Em um cenário corporativo cada vez mais complexo, investir em saúde emocional é investir no que há de mais valioso: as pessoas.

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